março 31, 2004

Suicídio?

Este texto foi redigido por mim numa aula, esta terça-feira... Só hoje é que acabei as correcções e o vou postar.


Foi num esboço, numa tentativa esforçada de um sorriso, que a vi. Ela. O seu sorriso que, de certa forma, nos encontraria, perdidos, no mundo. A perdição, o fim, não fariam sentido se, realmente, sorrises com sentimento, todos os dias. Sim, eu vi. No abismo da minha alma, no possível suícido mental, eu encontrei-a. Aliás, mais do que ela, foi o seu sorriso. Sim, esse seu pedaço de perfeição inagualável. Os tempos corriam, efémeros como tudo, e eu estava hipnótico, possuído. Nenhum exorcismo me faria esquecer aquele fenómeno sobrenatural que em mim habitava. Era ela. Ao acordar, naquele primeiro instante de cada dia, eu vi-a; depois, mais tarde, continuava com a sua face, o seu sorriso estampado na minha mente; horas depois, cansado da minha existência, apenas a sua imagem me salvava do desgaste mental. E, ao fim do dia, quando a noite já penetra bem fundo nas nossas casas, eu adormecia. E os meus sonhos, deixaram de ser sonhos. Eram, pura e simplesmente, ela. Ela, os sonhos. Os sonhos, ela. Existem alturas nas nossas vidas em que algo, ou alguém, constitui, subitlmente, uma parte de nós. Nessa altura, há um momento. Aquele momento de terror em que, por alguma razão, nos imaginamos sem essa coisa ou alguém. Desespero. Acho que, sem qualquer sombra de dúvida, o desespero nasceu desse sentimento. Não necessariamente da dor física, mas do possível imaginar de uma perda. É, de certa forma, como aqueles desvaneios que nós temos quando, no conforto de uma cama, nos imaginamos sem um membro. Mas, a dor de perder-mos algo que constitui a nossa existência, que não é corpo, é insuportável. Simplesmente agoniante.

Os dias passavam, continuavam na sua cíclica rotina, sem dar contas a ninguém. Eu, inocentemente, sonhava; estava a tornar-se obsessão. Resolvi então falar. Passar a minha mente para um papel que só no ar se escreve. Encontrei-te, com o teu sorriso, com a minha perdição. Falei-te; mas tu não me conhecias, nunca me conheceste. Nunca me tinha sequer viste e disse amo-te. A princípio, assustaste-te. Depois, ironicamente, riste-te. As tuas gargalhadas trespassavam-me como lâminas, pequenas agulhas a furarem o que eu sou. Sim, eras tu, a tua crueldade igénua. A dor... A raiva. Foram anos de sonhos que, num mero momento, se transformaram em nada mais que um pesadelo. O meu eterno pesadelo. Sinto o meu ódio; ódio em mim, no que eu sou, no que acredito. Eu, existir, não tem sentido...

Em chamas, ardido em dor, vi-me na escuridão. E, nessas trevas que durante horas a fio chorei, as minhas lágrimas, a minha dor, vi a minha saída. A corda, espessa e velha, magoada pelo tempo, reluzia num sítio sem luz. A corda, que reluzia, em redor do meu pescoço, sufocou-me a mágoa; A mágoa, a vida. Ambas sofucadas num, para sempre, mundo que nunca, ninguém, poderá entender. Suícidio?

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março 29, 2004

O Olhar

A dor, aprendi contigo, connosco, não é uma mera alucinação ou, pior ainda, um exagero da humanidade. Contigo vi que a minha exclusividade não era exclusiva. Vi em ti o sabor de mil palavras que, como asas, me faziam voar pelo mundo; o nosso mundo. Nessa dimensão que, no primeiro instante, revelou ser só nossa, pensámos. Reflectimos naquelas questões que o nosso sotão de antiguidades mentais guardava; naqueles aspectos que, por nós próprios, não chegávamos lá. Pensar, reflectir, dimensão. Só isto, agora, ecoa na minha cabeça, na minha mente, nos meus olhos. Olhos; quem não olhou os teus, não sabe o que é O Olhar. A verdade, a tristeza, a dor; o amor, o carinho e a perfeição. Aquela perfeição que tu não podes ver, pois não te podes sentir como eu te sinto. E, com a rotina efémera dos dias a passar, gosto mais de ti. Do teu olhar.

Aprendi, e muito bem contigo, que o olhar é uma porta quando visto com a devida atenção. E, na imensidão dos teus olhos, vi a tua porta, a tua alma. Nela, depois de abrir, perdi-me. Esse teu olhar, digno de uma Deusa, cativa os mortais. Por tantas razões...

E o que é que alguém que, como tu, se odeia pode ver em ti? A perfeição. Completas-me. Ouvir-te respirar é um prazer, saborear os teus lábios um privilégio e poder sonhar contigo e, no dia a seguir, acordar e pensar que és mais que um sonho. És tudo isto, e muito mais. Esse mais consigo traduzir numa palavra. Aquela que acho que mais se aproxima de mim, em relação a ti... A palavra que só tu ouves da minha boca, que me sai quase que involuntariamente, que se escapa entre os nossos olhares. Essa palavra, não ta escreverei. Sussurar-te-ei ao ouvido todas as noites...

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março 27, 2004

Escolha

Perdido numa imensidão de pensamentos no meu dia que, apesar de curto, se revelou ser, de certa forma, introspectivo. Pensei em variadas temáticas como a fidelidade, o suicídio e a dor. Em todos estes temas as opiniões divergem de pessoa para pessoa. E isso fez-me pensar em escolha.

Outrora fostes macacos, e mesmo agora o homem é o mais macaco do que qualquer macaco. Frederich Nietzsche

Sem dúvida que a Humanidade tem evoluído devido à diversificação de pensamentos, filosofias e maneiras de ser. Tal como a arte, que pode ser apreciada de tantas e variadas maneiras, nós humanos somos meras telas sujeitas à apreciação de outros. Podem, ou não, gostar de nós. As nossas posturas, muito influenciadas pelo nosso meio-ambiente, pela nossa educação e, acima de tudo, do nosso passado, reflectem essa diversificação. Hoje em dia nós somos ociosos. Somos seres repletos de uma ociosidade que, muito infelizmente, só contribuí para o regresso acentuado da evolução. Mas essa ociosidade é, por vezes, quebrada. Pelos nossos pensamentos e ideias. Essas formações de raciocínios que, de certa forma, moldam a nossa existência. E, consequentemente, as nossas escolhas diferem. Os nossos valores, crenças, rituais, rotinas, posturas e pensamentos diferem.

Li, há uns tempos, algo que me intrigou muito:

Parece claro que as "belas-artes" (...) nasceram da agonia e do aborrecimento.

Se nós somos tão diversificados quanto a Arte em si, também nós, a nossa personalidade, teremos nascido da agonia e aborrecimento. Nós formamo-nos no aborrecimento, na apatia. E é agonia que nos forma as nossas posturas. Se cada um de nós somos uma "escolha" diferente, eu tenho que obrigatoriamente negar e nunca aceitar algumas posturas. Ora então se o sofrimento ainda perpetua, e cada vez mais, no nosso mundo porque é que eu digo que se vive uma regressão acentuada? Porque a nossa "macaquice", a nossa ociosidade, a nossa apatia, a nossa agonia e a nossa dor é cada vez menos reflectida. Daí, a meus olhos, as escolhas se tornarem regressivas.

Cada indivíduo é único; deverá, então, possuir as suas próprias características. Mas que a sua maneira de ser não interfira com a dos outros, que não lhes cause "incómodo".

A escolha(errada) é a lacuna da evolução da humanidade.

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março 24, 2004

Filosofias

Eu tenho andado doente; febril e com fraquezas. Provavelmente sou apenas mais uma vítima de uma "virose" que anda por aí, ou então foi a minha habitual falta de cuidado ao agasalhar-me que me pôs neste estado. Mas estar doente não é mau de todo. Temos tempo para ler e reflectir. Quando estamos mesmo mal-dispostos a reflexão é capaz de ser a única coisa que nós, humanos, conseguimos fazer. E foi numa dessas reflexões enfermas que, ainda há umas horitas, me pus a lembrar de uma conversa com a co-autora do blog. Ela perguntou-me se eu ainda me lembrava da primeira intenção do blog; eu, nostalgicamente, recordei-me claramente dessa intenção: era colocar on-line os discursos e/ou conclusões filosóficas de ambos. Nessa altura, Setembro, andávamos a ter conversas muito profundas. Tocámos em assuntos que, por mim, estavam enterrados há muito, muito tempo. Mas eu rematei, nessa conversa, que a primeira intenção do blog ainda vive, é o que está patente nas escrituras quase que diárias que existem neste recanto on-line. Sem dúvida que são textos com as nossas dúvidas, afirmações, experiências. Mas a filosofia, em si, não é dúvida, afirmação e experiência? Nunca fui presunçoso ao ponto de me considerar filósofo. Sempre pensei e imaginei que filósofos fossem aqueles intelectuais que, de alguma maneira, provocaram alterações no pensamento da actual civilização. Falo claro de Sócrates, Platão, Nietzsche, Freud, Marx, Engels, etc. Mas, sem querer desdenhar os feitos dos mencionados, eles nada fizeram senão pensar. Livres de dogmas, livres de religiões ou teorias criacionistas, eles pensaram, à sua maneira, nas diferentes vertentes filosóficas. O que o homem? Qual é a origem do Universo? O que é a moral? Estas foram as primeiras perguntas. Os verdadeiros filósofos nunca admitiriam que souberam as respostas. Apenas poderiam formular teorias com a sua razão. Ou, como alguns Antigos, usariam os sentidos. Pensar levaria à procura do Saber. Pensar por nós próprios não nos dá saber, dá-nos a nossa verdade, a nossa compreensão.

A co-autora do blog, Lady Sianna, corrigiu uma pequena afirmação minha:

A Filosofia é o prazer da minoria

Há que, realmente, concordar. Eu só acerca de uns dias é que me afirmei como filósofo. Tal afirmação é consequente de uma divisão da raça humana, inteiramente criada por mim, logo sujeita a erro. Essa divisão consiste em 3 partes:

-Os que pensam: São aqueles que, de alguma forma, questionam o porquê da sua existência; Gostam de questionar valores, ideias e teorias, tentando sempre formular sempre as suas opiniões, as suas verdades. São aqueles que, como a Lady Sianna disse, têm um objectivo na vida, procuram a sua verdade.

-Os Humanos: Esta categoria é de muito fácil descrição. São aqueles comodistas existências que co-habitam o planeta connosco. São a maioria que, de nenhuma forma, pretende evoluir ou melhorar a sua condição na vida. Vivem com os ensinamentos impostos e não questionam.

-Os inaptos ou incapacitados: Longe de mim querer assemelhar-me a um Adolf Hitler ou qualquer outro puritano. Esta categoria engloba aqueles que não conseguem pensar, aqueles que sofrem de handycaps que os impossibilitam de pensar e racionalizar a sua existência.

Tal como já referi anteriormente, eu nunca fui presunçoso ao ponto de me considerar um filósofo. Mas, com esta minha nova linha de pensamento, tenho que ver que não sou Humano, nem inapto. Penso, questiono e tenho sede em saber. Nunca, em tempo algum, me ouvirão dizer que sei muito sobre muita coisa. Assim como Sócrates, admito, humildemente, que sei pouco ou quase nada. Sendo assim, sou um filósofo. Sou um dos que pensa.

A questão é agora lançada:

O que é que vocês são?

Serão os possuidores do prazer da minoria? Porque quem pensa é a minoria. A cada dia que passa as pessoas munem-se de uma estupidez atroz que, sinceramente, vai prejudicando o evoluir da raça humana. Ou são os humanos, convalescentes de momentos que, sem qualquer interesse, acomodam-se à sua existência sem nunca a questionar? Inaptos? Até que ponto amam as vossas convicções? Morreriam por elas como Sócrates? Estas questões são alguns dos meus tormentos no dia-a-dia. Mas há algo que, realmente, me anima. É o facto de eu, pelo menos, pensar nelas...

Publicado por Downthesun em 03:29 AM | Comentários (0) | TrackBack

março 20, 2004

Momentos II

Dentro de momentos existirão, cada vez mais, momentos. Pedaços de instantes que, dentro de um instante maior, guardamos como tesouros. A nossa riqueza, momentos, passa por nós como gotas de um oceano infinito. Receamos o seu fundo e, no entanto, amamos a sua superfície povoada por mais instantes. Eu, tal como como tantos outros humanos, guardo dentro de mim tesouros, instantes, momentos. Ainda à escassos minutos tive um momento; um instante de reflexão profundo. Deixei-me vagear em mim mesmo na presença do meu Anjo. O meu Anjo não é um momento, não é um instante. É, apesar, um tesouro. Mais do que um instante, mais que um momento. É o conjunto de momentos e instantes. Partilho com ele, o meu Anjo, a dor e tristezas que nunca poderão ser comparadas. A dor e tristeza que, para sempre, serão dor e tristeza. As suas lágrimas, gotas no oceano infinito, de momento. Choram sobre mim. E vagueei, voei por mim mesmo, fui ao cerne da minha dor. E aí, na presença do meu Anjo, na presença da minha dor, compreendi; percebi a minha essência, a dor do mundo. O meu Anjo, entre gotas do oceano, disse tenho medo. O eterno medo que, como os momentos, acompanham a nossa raça até ao fim dos dias. É o medo do fim, do encerrar. Do terminus de uma vida. A Morte. O medo. A morte e o medo, juntos, entre gotas de um oceano. Eu não sabia falar. Perdi a noção das palavras. Dei-lhe, ao meu Anjo, a toalha para limpar as gotas. A toalha. Disse desculpa. Dizer desculpa é admitir, sem gotas de um oceano, o egoísmo; ele disse todos nós temos direito ao nosso egoísmo. Eu aí chorei, lágrimas, gotas. Dentro de mim. E senti uma força tremenda. Senti gratidão. Pela compreensão da dor, pelos esforços, pelo medo. Dor, esforço, medo. São, quando juntos, Amor. E ao Amor devemos sempre retribuir com, eterna, gratidão. E foi mais um momento. Que estava dentro de um momento, ainda maior, que era maior que todos os momentos. O Momento. O instante, que não é instante, eterno. Esse momento é o mais dilacerante de todos. É o nosso, eterno, momento. E volto a estar perdido na gota de uma lágrima que chorou a minha alma. Sem nada, e com tudo. Com tudo, a dor, o Amor, a tristeza; sem nada, o vazio.

"Ai! o que se aproxima, é a época do homem mais desprezivel, do que nem se poderá desprezar a si mesmo." Frederich Nietzsche in Assim Falava Zaratustra

E jazem as palavras sábias. A premonição de um pensador, de um doente do mundo, que é, nos nossos dias, mais que comprovada. E eu, como Cristo, pergunto, em tons de desespero: "Porque é que me abandonaste?" Súplica de uma resposta de quem não acredita no inquirido...

Publicado por Downthesun em 03:58 AM | Comentários (2) | TrackBack

março 18, 2004

Sonho

Esta noite sonhei que tinha sido atacada por gatinhos... eles cravavam as suas pequenas garras na minha pele e abriam-me feridas... ficaram assim, rasgando-me, brincando com a minha pele durante um bom tempo! Eu sentia-me incrívelmente bem, apesar de assustada, com esta brincadeira... Senti-me esvaír em sangue e morrer lentamente enquanto eles ronronavam e brincavam a meu lado!
Lembro-me que acordei assustada... procurei nos meus braços e no meu peito, mas não tinha qualquer vestígio daquela aventura!
Será que necessito assim tanto da dor e da morte?! Será essa a minha morte?!

Publicado por Lady Sianna em 07:10 PM | Comentários (2) | TrackBack

março 16, 2004

Maldições, Amor e Medo

O correr efémero dos dias sob a minha pele, a minha escultura corporal, é a causa da minha erosão mental, o explodir da minha mente. Existir é não dar vida ao corpo e ter a alma a chorar. Chora, sempre, lágrimas que não são ouvidas; Chora, sempre, gritos de angústia que, com o correr efémero dos dias sob a minha pele, mostram-me. A exaustão. Temo, a cada dia que passa, o cair da noite. Agora, de tarde, estou no meu estado de dormência, de nulidade. Mas a noite, as trevas que, em tempos, foram-me tão queridas tornam-se lacinantes. Ouiço o ganir da minha alma quando, de noite, fecho os olhos. De tarde não. A noite e a tarde são as minhas vidas. A dormência e a agonia. E vivo momentos. O Livro é um dos momentos: embebedo a minha mente em palavras, pensamentos, frases e personalidades que não são as minhas. E, nesse momento, passeio-me em mim, no meu sangue, na minha alma, no meu passado. Cada palavra caí-me como uma maldição que invoquei. E, como os imaginários feiticeiros, imploro mais palavras, mais sangue, mais alma, mais passado. Maldições...

O dia onde a luz brilha, amado por tantos mortais por ser antónimo de trevas, é a minha inexistência. Sorrio, converso. Cada vez menos. Começo, na rua, nas viagens, no meu Lar, a destruir-me nos meus pensamentos, na minha nulidade. Minto. Abstraio-me novamente em divagações da minha mente que, com satisfação, vagueiam a minha alma. E, de dia, quando fecho os olhos vejo-A. Ela, o meu anjo. A Sua dor, a Sua alma, a imensidão dos seus olhos. Perco-me horas na escultural presença dos Seus lábios. Navego em nós. De dia, vejo-o como se me segurasse do desespero total. Ele, o meu Anjo, é o meu sorriso da alma. Dentro das lágrimas da minha alma, ela sorri. E eu sorrio com ela. Sorriso, lágrimas, lábios,olhos. Amor...

E, com o pôr-do-sol, as trevas começam a sair do seu covil iluminado pelo Sol. Tal como no Livro, nas palavras e personalidades que não são minhas a Música nasce uma vez mais. Penso que a Música, que tanto Amo, é a filha das trevas. A noite. De entre a escuridão, das trevas, da noite, a minha dormência cessa. Os pensamentos, palavras e personalidades que, desta feita, são minhas, atormentam a minha existência. Uma vez mais. A agonia, a Exaustão. O Livro já não me satisfaz; só atormenta mais. A dor, o passado surgem como companhia para as horas das trevas. E o início das trevas acaba com o meu deitar. Mais que a noite, temo a minha cama. Com sono, fatiga e exaustão a dor aumenta. E, por mais sono que tenha, os olhos teimam em voltar a abrir-se. Não porque queira, mas porque não consigo ver-me. Fecho os olhos, uma vez mais, e a Dor, o Passado, o Presente, o Futuro. O tormento é maior. E abro os olhos, quentes e húmidos de lágrimas, assustado. Temo, por mais sono que tenha, fechá-los novamente. Medo...

E é assim que a cíclica rotina dos meus dias decorre: Maldições, Amor e Medo.

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março 14, 2004

Momento...

Olha para mim, imploro-te. Perde-te na imensidão dos meus olhos; sente a minha alma, o meu espírito, a viajar na tua escultura. Ilude-me com os teus beijos, o teu toque... A tua pele, na minha. O toque. Agarra-me, perde-te comigo na eternidade de um momento; Mente-me. Eu descia por ti, os teus lábios perdiam-se nos meus, que eram teus. No momento, naquele momento. Toca-me outra vez, quero sentir aquele arrepio outra vez; Arrepio, Toque. Freneticamente, na mentira, apaixonados. Foi o momento, o teu toque, os teus lábios. Encontraram os meus. E foi aí, que me mentiste. No infinito da crueldade consumimo-nos, o mundo à nossa volta girava. E chorava. De agonia, tal era a ilusão. Depois do momento, do arrepio, do toque, eu parei. Senti as lágrimas do mundo cairem-me em cima, como facas afiadas de veneno. Vi a desilusão... Fui traído pelo momento, pela paixão. E tu, vitoriosamente, sorriste...

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março 10, 2004

Um anjo negro

Era só mais um dia cinzento. Eu tentava estimular a minha imaginação através de um livro, procurava perder-me nas páginas delimitantes da vida de outros, de personagens com uma vida mais excitante que a minha.

Dei um passo largo (pretendendo sair do comboio) e, no mesmo momento, levantei os olhos e vi-te! O meu dia encheu-se do vermelho dos teus cabelos… pareceu-me então que o aglomerado de papéis que segurava gentilmente entre os meus dedos era infindavelmente aborrecido! Só poderias ser o ser mais perfeito à face da Terra.

Sentei-me perto de ti… desejei o teu olhar, o teu cheiro… Abri o livro mas roubaste-me toda a concentração! Olhei-te pelo canto do olho…

As tuas mãos encantaram-me! Os teus dedos, delgados e longos, eram de um branco puro, cristalino, dando uma sensação de suavidade de seda divinal! Os teus dedos, perfeitos, eram complementados com o contraste das tuas unhas rosadas (lembrando-me as de uma criança) sobre a tua saia negra.

Olhaste-me! Sobre a tua pele cor de morte apareciam duas pequenas rosetas de um rubro suave… O teu olhar cortante incomodou-me, enchi-me de coragem e olhei-te nos olhos… o seu castanho cor de mel com pinceladas verdes mostravam um olhar inteligente e astuto. Uma mecha do teu cabelo, de um vermelho surreal, brincava com a tua face, prendendo a minha atenção nos teus lábios sublimemente delineados por um vermelho vivo, dando ênfase a essas almofadas sobrenaturais! Que preciosidade… que blasfémia cometeria eu se desejasse um beijo desses lábios!

O teu olhar de indiferença provocou-me um arrepio na espinha, que só fomentou o feitiço que, tão celeradamente, fazias cair sobre mim

Calmamente fechaste o teu livro, levaste a mão ao ombro (que estava descoberto) com o intuito de te ajeitares. Reuniste os livros que trazia e levantaste-te! O teu serpentear era visível através da longa saia negra, o teu braço dançava, acompanhando o movimento do teu corpo, enquanto os teus dedos brincavam com o pequeno anel que te adornava o dedo anelar.

Devorei todos os teus gestos até à tua entrada no comboio e, no momento em que as portas se fecharam, tive a certeza de ter testemunhado a aparição de um anjo… de um anjo de negro!

Publicado por Lady Sianna em 09:31 PM | Comentários (2) | TrackBack

Repetição

Mais um dia, entre os dias, o meus dias. A rotina que se repete, dentro da eterna repetição, e me impele de sentir o novo, o desconhecido. O meu corpo é, totalmente, banhado por nós, humanos. E continuo sem ver, ou querer ver, e sentir, ou querer sentir. A nova Era chegou. A minha Era. Não a dos outros. Os outros, para mim, morrem lentamente a sua morte. A sua morte que é, para eles, os outros, a vida. Rio-me. Com as piadas, as histórias, o ódio e a paixão. E choro. Com a minha, só minha, sempre minha, mágoa. O meu desespero ao querer gritar para o mundo a sua própria estupidez. Mas aprecio e saboreio a minha concha. A minha casca. A minha máscara. Só eu, e os que são de mim, me conhecem. Só o meu sangue e os que, com o meu consentimentos e benção, dele bebem sabem quem Sou. Sem concha, sem casca, sem máscara.

Amo, venero e admiro a minha obra. A minha construção perfeita e, por vezes, quase que divinal. A minha criação. Sou o criador do meu mundo, da minha concha, da minha casca, da minha máscara. E nele me fecho, com a minha mente, comigo e com aqueles que, com o meu consentimento, bebem de mim. Rio, às vezes falo, por fora. Eles, os outros, todos eles, não conseguem ver-me. E eu não quero que me vejam. Só eu e o meu sangue é que podem ver. O que eu sou... E vivo, na eterna rotina, da infinita repetição. Mas a Esperança, que é o meu sangue, que sou eu, alimenta-me e dá-me forças para reforçar a minha criação. Sou o meu criador. Criei-me... Até que ponto, que limite, é que o meu império, o meu reino, a minha máscara, aguentará proteger-me deles, dos outros, todos eles?

Quero, sem dúvida, com certeza, viver fora dele, só comigo. E com o meu sangue...

Publicado por Downthesun em 07:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

março 09, 2004

Esquecimento

Hoje numa tarde, munida de uma rotina e repetição agoniantes, reparei, pensei e observei um fenómeno que, após uma pequena divagação, constatei a sua veracidade. A sua veracidade, a minha verdade, é única. É como a interpretação de uma música, só nós a sentimos e, como a sentimos, é um fenómeno único. Por vezes dou por mim, ao sabor de um cigarro, no meu santuário, no meu refúgio, no meu quarto, a pensar. Filosofar sobre a minha incessante busca da obtenção de verdades. As minhas verdades, verdades que apenas eu posso compreender e, talvez, aceitar. São aquelas aquisições mentais que, tantas vezes, inconscientemente damos como certas e sabidas. E, por vezes, novamente, afirmações contraditórias às nossas conclusões são tratadas com alguma arrogância da nossa parte... Evitando agora mais desvios do fio à meada quero, antes de mais, fazer uma pequena introdução ao meu desvaneio mental do dia de hoje.

Estava eu, de headphones postos, a saborear uma vez mais a música que me alegra, a minha música, que é muita música. Perdido na futilidade dos pensamentos enquanto esperava, paciente e distraidamente, pelo meu professor de matemática, reparei nas faces dos meus colegas, nas suas formas e nas suas existências. Comecei a pensar que, efectivamente, já decorria mais de um ano que convivia diariamente, numa rotina, com eles. Conhecia o que eles me mostravam, assim como eles, todos eles, conheciam aquilo que eu lhes mostrava. É mais de um ano de um jogo. A brincadeira de quem esconde melhor quem sou. Um jogo que, infelizmente, é usado frequentemente e de origem, penso eu, milenar. E pensei nos meus colegas antigos, de outros anos, de outras turmas, de outros tempos. E deles nada guardo. Nem saudade, nem recordações, nem piadas. Guardo escassos episódios, cenas e curtas-metragens que, por mim, são minimamente relevantes; Outras cómicas. Mas, tirando esse reduzido número de episódios, nada mais guardo deles. Perdi-os, perderam-me, no tempo. As suas faces, esquecidas, são nada mais que estatísticas estalinistas da minha vida. E voltei a olhar os meus colegas. E olhei, desta feita, para o futuro, o meu futuro. Não o deles. Pois não é totalmente incerto, o deles. É simples, é um futuro de esquecimento; serei, claro, esquecido. E eles, tal como eu, serão esquecidos. Desta vez por mim. Nada me dizem, até os mais chegados. Com alguma sorte manterei o contacto com alguns... Mas até aí se desmoronará a nossa relação.

Voltei a pensar... Quem são as pessoas que podemos dizer que são para toda a vida? Simples: aquelas que, de corpo e alma, entregam-se a nós; e nós a elas. E, tirando o meu sangue, os que vivem comigo todos os dias desde os primórdios da minha existência, conheço duas pessoas às quais me entrego. Mais ninguém. E como posso eu considerar outros, outras caras, outras experiências, outras vidas, outras existências, meus amigos...

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março 08, 2004

Náusea

"Se não me engano, se todos os sinais que se vão acumulando são precursores duma nova transformação brutal da minha vida, então tenho medo. Não que a minha vida seja rica, importante, nem preciosa. Mas tenho medo do que vai nascer, apoderar-se de mim - e arastar-me... arrastar-me para onde? Vou ter outra vez de partir, deixar tudo em meio, as minhas pesquisas, o meu livro? Voltarei a acordar daqui a alguns meses, daqui a alguns anos, derreado, desiludido, no meio de novas ruínas? Queria ver claramente o que se passa em mim, antes que seja tarde de mais."

Jean-Paul Sartre in A Náusea

Publicado por Lady Sianna em 11:08 PM | Comentários (4) | TrackBack

março 03, 2004

Um momento presente...

Disseram-me hoje que o futuro não passa de uma porta que forma uma trajectória, mais ou menos, recta com a porta do passado!
Pensei e pensei e só pude concordar! Às vezes gostamos de pensar que o nosso futuro vai ser totalmente inesperado... e porque não? Mas qual será a percentagem de pessoas que pode dizer que a vida deu aquele salto? Muito poucos...
Por mais que, por vezes, nos custe o nosso futuro é construído com as acções do nosso passado... o passado que nos constroí como pessoas! O que quer dizer que, mesmo que não tenhamos boas recordações do que fomos, vai ser isso que ditará o que iremos ser no futuro!

Publicado por Lady Sianna em 10:56 PM | Comentários (4) | TrackBack

março 02, 2004

Blind

As nossas mentes, por vezes, conseguem atingir uma imensa confusão. Explosões de sentimentos, emoções, pensamentos e raciocínios podem causar algo que eu chamo de "overload cerebral". É, a modos, triste e desconfortante a sensação em si, independentemente da(s) sua(s) causa(s). As soluções para estas ocasiões assentam na capacidade filosófica abstracta de cada um de nós, que por sua vez contribui para a evolução mental e de carácter de cada um de nós. Acredito ou, pelo menos, tento acreditar que todos nós sofremos deste mal. O que me/nos diferencia da restante população humana é a maneira como criamos a(s) nossa(s) solução(ões). E as causas podem ser tantas para nos pôr num estado de desgaste mental. Até as mais ínfimas mudanças podem ter relevo(por vezes colossal) na nossa evolução.

Nestas alturas é preciso apoio. Na altura em si não admitimos o quanto precisamos de ser ouvidos, mas quem nos ouve acaba por desempenhar, apesar de nem sempre, um papel vital. Mas, no meu caso, são tão poucas as pessoas capazes de me proporcionar o apoio que preciso. Mas, em compensação, tenho o privilégio de me relacionar com alguém me consegue acalmar; e isso é sem dúvida uma ajuda.

O mundo não muda. Apenas nós evoluímos/mudamos. Uns para melhor, outros para pior. E entramos num ciclo cuja infinidade torna-se agoniante. É preciso é saber combatê-la.

Publicado por Downthesun em 05:15 PM | Comentários (3) | TrackBack