março 13, 2005

Cardiografia III

Não, este não é o terceiro post de uma série. Aliás, nunca foi escrito nenhum post com o nome de Cardiografia. Este nome, porém, tem uma história por trás, uma história que jurei nunca mais de voltar a pensar nela. Uma cardiografia é um exame ao coração. Existe, para mim, como um exame à parte abstracta do coração, conhecida pela maior parte dos seres humanos como consciência.

Em tempos, escrevi 2 Cardiologias. Eram poemas com um significado muito próprio. Cometi um erro crasso com um desses poemas: dei-o a uma pessoa. Na altura, foi uma oferenda com imenso sentido e significado mas que, infelizmente, foi negligenciado pela pessoa que o recebeu. Passaram-se três anos, cheios de mudança, felicidade e, para não variar, dor. Sim, a dor acompanha-nos sempre, o que pode variar é a forma como se nos apresenta. Não me vou por a falar do que aconteceu, ou do que queria que tivesse acontecido. O que interessa é que aprendi, mais do que muito, em três anos. Fui quebrando, como me disse uma pessoa, a minha redoma.

Serei sempre o responsável pelos meus actos. É a minha condição eterna, ninguém pode resolver problemas por mim. Por me ter consciencializado desta problemática, resolvi escrever mais uma cardiografia, desta vez numa formato diferente:

Todos os dias acordo e tenho que suportar a minha maneira de ser. Como correntes de aço que me prendem a alma, vivo condenado à minha maneira de ser. Quando me lavo, depois de acordar, vejo escorrer a água, enegrecida pelas minhas falhas, até ao fundo de um esgoto a que me vou habituando a chamar de lar. Visto novamente a única roupa que tenho: a incerteza do que, ou quem, sou.
Ando só pelas ruas cinzentas de uma cidade que não me conhece. Todos os que me rodeiam sorriem e vivem as suas vidas à sua maneira, com as suas escolhas. Mas não são voláteis como eu sou. Tenho um mundo só meu que apenas eu o compreendo. Não o sei justificar, não o sei explicar. Mas sinto-o, sinto a minha consciência, ou egoísmo, a falar como se tivesse razão.
Em casa, no meu quarto, embrenhado na escuridão da noite, penso nas coisas que eu gostaria de ser ou fazer. Calmamente, esses pensamentos vão se apoderando daquilo que eu sou, torturando-me pela sua natureza utópica. Nunca serei mais daquilo que sou. É triste, mas é verdade.
Eu magoo as pessoas. De tempo a tempo, aquilo que eu sou lacina aqueles que me rodeiam. E volto a fazer o que faço sempre, peço desculpa. Mas pedir desculpa não apaga o erro nem a dor que ele causou. Corrigir os meus defeitos? Eu tento, mas às vezes parece um esforço infrutífero. Pior ainda é quando me sinto a sair da escuridão, a melhorar-me; aqui acaba sempre alguém a dizer que não faço o suficiente.
Assim, tomei uma decisão. A única que podia ser tomada. Fica só para mim, como a minha penitência pessoal que me vai acompanhar, quem sabe, até ao fim da minha vida.


Publicado por Downthesun em março 13, 2005 05:30 PM
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