abril 29, 2004

The Return Of The One That Is Not A Jedi

O tempo passou, dilacerante como sempre, mas não me consumiu. As suas forças não foram, mais uma vez, em tantas vezes, suficientes para acabar com o resquício da minha alma; e por isso voltei. O contratempo foi ultrapassado, era de esperar, pois não há nada que a máquina capitalista não resolva. Mas o tempo trouxe consigo algumas coisas, pequenas trouxas, que se prenderam a mim: reflexões. Pedaços de raciocínios, esquissos de pensamentos que atordoaram a minha mente durante os dias que passaram. Tédio? Não, nunca. Apenas o doce travo da incógnita que é o tempo a passar, a pesar, sobre a minha existência. Eu confesso, assumo e admito que a minha existência tem andado adormecida; física e psicologicamente. Já dizia o Pessoa, o inconsciente de serviço, que "por isso eu tomo ópio, é um remédio...". Cada mal tem a sua cura, e cada pessoa tem o seu remédio. Os problemas nascem quando o remédio se apodera, toma conta, lentamente, do que somos por demasiado tempo; deixamos de ser nós e passamos a ser nada mais que matéria.

Com os dias de calor que nos trespassaram os sentidos, ao invés de seguir a corrente tradicional de alegria e felicidade, deixei-me, conscientemente, apoderar pela minha, tão habitual, melancolia. Quem me conhece - um escasso punhado de pessoas - conhece a minha melancolia, estado tal que me divide o espírito em duas formas: apatia e filosofia. Qual delas a melhor? Pergunta cuja resposta varia dependentemente do meu estado de espírito; subjectiva, então, por natureza. Dou por mim, muitas vezes, na minha cama a pensar no meu passado, no meu presente e tentar lutar pelo meu futuro. A melancolia é a minha arma para pensar e, ao mesmo tempo, o meu escudo para não pensar demais. Na noite, nesse conforto eterno, encontro-me. Mas não encontro apenas quem sou, encontro também quem fui e tento encontrar quem serei.

Sonhai! - Oh ignorância - digo eu àqueles que nada temem pois nada sabem. Que sonhem, que sejam iludidos por uma verdade só deles - a que não existe - e morram contentes com os frutos do seu pensamento. Sonhem pois eu hoje vi uma pureza inagualável; guardei-a dentro de mim e não a partilhei. Quis reviver essa inocência sózinho e tentar, de alguma forma, percebê-la. Nietzsche ficaria chateado, quiçá invejoso, do que eu vi e testemunhei. Falo pois, e sem rodeios, do Super-Humano. Um misto de inteligência, interesse, empenhamento, versatilidade, polivalência e dedicação que, até a mim, o pessimista, me surpreendeu. Posso comprovar que o seu único propósito na sua vida assemelha-se ao pensamento dos Antigos, ao pensamento daqueles que inventaram o pensamento. Trata-te, pois, do conhecimento. Esse tal de Super-Humano - o anti ignorância - é munido de virtudes. E a sua maior é a modéstia.

O passado. Instantes dentro de momentos que no futuro tornam-se memórias ou fantasmas. Todos nós, Humanos, temos fantasmas do passado; erros, actos e pessoas. Talvez tenhamos mais. Talvez o não saber definir um fantasma do passada seja, por si só, um fantasma dentro de instantes. Vivemos com a nossa alma, pesada por fantasmas e que, raramente, é avivada com memórias. Reencontrei um, um velho amigo meu, há uns dias. A insónia. Já não me lembrava o que era ter sono, muito sono, ansiar loucamente por dormir e, simplesmente, não conseguir. Mas o hábito faz o monge. As lâminas desgastam a minha, cada vez mais, fútil existência. Lâminas do tempo. Do meu tempo...

Publicado por Downthesun em abril 29, 2004 03:00 AM
Comentários

Espectacular....gostei imenso. Lembra-me certas questões que me ponho a mim própria, geralmente quando estou mais deprimida, nostálgica...pelo que já li a diferença de idades (eu e tu) é "grande", mas parece-me que alguns dos "problemas" são os mesmos.... Continua a escrever...vale a pena "ler-te"

Afixado por: inês em maio 3, 2004 04:09 PM

Inês, obrigado. É sempre reconfortante lermos comentários como o teu... dá sentido à existência do blog; e dá alento a escrever mais. =)

Afixado por: downthesun em maio 3, 2004 05:50 PM

...isto vai parecer parvo...mas aqui vai....tenho estado a ler "pots" passados teus, e é incrivel...como é que uma pessoa, lendo aquilo que escreves se consegue rever em situações e/ou em pensamentos semelhantes....e afinal a diferença de idades n é grande...estava enganada...o que ajuda á leitura

Afixado por: inês em maio 4, 2004 06:35 PM

Hmmm, obrigado! =) Espero que continues a ler, beijinhos.

Afixado por: downthesun em maio 4, 2004 11:42 PM

E que posso dizer eu acerca deste post?
A minha pobre escrita ficou petrificada com algo tão belo, como a modéstia de pensamento e a virtude dos que sem ela nada contrapõem, verdadeiramente dignficante.
Sonhai, meu rapaz melancólico, sonhai meu amigo escritor, porque tudo o que pensas cumprir-se-á, na madrugada do infinito.

Afixado por: Sonhador em junho 6, 2004 04:44 PM