abril 12, 2004

Tabacaria

TABACARIA
"...Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho genios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido..."

Álvaro de Campos

Publicado por Downthesun em abril 12, 2004 04:42 PM
Comentários

quando leio fernando pessoa e heterónimos penso "se eu tivesse este talento podia ter escrito isto".
é essa a diferença entre um bom texto e um texto que nos marca. ele é-nos tão familiar.
obrigada :)

Afixado por: fairy_morgaine em abril 14, 2004 05:28 PM

Sem dúvida que sinto alguma da Poesia de Pessoa na minha espinha... E sinto-a bem fundo. Sinto, vibro, ainda mais com o heterónimo Álvaro de Campos... Pessoa é, inegavelmente, lindo.

Afixado por: downthesun em abril 14, 2004 06:15 PM

E que mais poderemos dizer quando algo nos possui as entranhas mais inóspitas da nossa máquina?
*

Afixado por: Sonhador em junho 6, 2004 05:11 PM