abril 05, 2004

Um caderno de vida

Sentado num canto escuro de uma sala gélida de vida procuras uma forma de sair, de romper com a tua solidão, de encontrares uma das partes que faltam à tua alma...
Na tua mão um caderno preto, um pequeno caderno para todos os teus sentimentos, ambições e prazeres. Um caderno, o caderno da tua vida, da tua insignificante vida. E escreves, escreves frenéticamente numa folha que para todos os que te rodeiam é vazia.
Procuraste evitar o destino que todos te apontaram... seria tão mais fácil ser mais um zombie e ver a vida como algo de maravilhoso, sentir o tempo flutuar, ser só mais um e aguentar um sorriso...
Onde tudo começou?! Se calhar já nasceste assim, o fado pintou a tua vida de negro e tu aceitaste, aceitaste porque não vale a pena viver de outra forma. A dor que tu nunca sentiste aproximar porque teve sempre contigo, hoje esmaga o teu ser, hoje mais do que noutros dias, esta noite mais do que noutras noites, neste momento mais do que em todos os momentos por ti já vividos.
E escreves, pintas palavras que te fazem sentido, contas sonhos e desgostos, contas a tua dor e a alegria com que nunca te deliciaste, falas dos outros e de ti, pintas sorrisos e raivas... Escreves, mas não é para ti.. queres que os outros também vejam o teu negro, queres que eles tomem a tua dor e sobrevivam com ela, queres abrir a porta do teu mundo.. o teu mundo...
Agora mais do que em qualquer outro momento o teu coração aperta... a dor é demais para ti. Para quê viver neste momento?! Para quê esperar pela sua degradação, para quê esperar por outro momento?!
Largas o teu caderno... percebes que as palavras nada dirão a outros, apenas a ti.
O momento está a passar e a seguir virá outro pior, outro calafrio na espinha, outra dor no coração, outro nó na garganta, mais raiva! Esperas.. procuras mais dor e ao a sentires abres a primeira ferida, cai uma lágrima.. de raiva, de dor, de prazer?!
Momento após momentos, ferida após ferida tentas matar a tua dor, tentas acabar com a tua existência, tentas apagar-te!
Olhas uma última vez para a sala gélida, para o teu canto escuro, para o teu caderno de palavras... o teu caderno de vida... e num último esforço fecha-lo!

Publicado por Lady Sianna em abril 5, 2004 11:47 PM
Comentários

Realmente por vezes existe um determinado prazer na dor. Todos temos algo de masoquistas.
Porque a intensidade nos dá vontade de chorar. A intensidade dos sentimentos.
E há quem sinta a intensidade brutal da dor. E na impossibilidade de sentir intensidade em qualquer outro sentimento se torne um drogado nessa dor.
Essa dor que nos rasga.
Gostei muito do texto.

Afixado por: fairy_morgaine em abril 6, 2004 02:19 PM

A dor, como qualquer outro sentimento, faz parte da nossa vida. Por mais que a tentemos afastar ela volta porque também ela nos pertence.. Porque não aceitá-la e aprender a viver com ela?!
Sim, todos nós somos um pouco masoquistas, nem que seja apenas porque a dor nos proporciona a oportunidade de nos sentirmos vítimas de algo ou de alguém...
Obrigado pelo comentário Fairy_morgaine

Afixado por: Lady Sianna em abril 6, 2004 11:42 PM

Todos nós procuramos uma maneira de sair da solidão. Talvez a poesia seja uma porta ou talvez ela seja uma outra forma de clausura, não sei. Vim conhecer teu canto, trazida não sei por que ventos. E gostei demais. Se puder e quiser, vem conhecer Meu Porto. Será, para mim, uma alegria.

Afixado por: Míriam (Gwen) em abril 7, 2004 09:25 PM

E porquê fechar o caderno quando o podemos abrir, de par em par, sobre um horizonte infinito de possibilidades?!!

Afixado por: Assumida Mente em abril 10, 2004 04:56 AM

Mais uma vez me senti plenamente identificada pelas tuas palavras... Parece que descreveste a minha situação já de anos...

Afixado por: Gilly em maio 7, 2004 06:25 PM

Mais uma vez me senti plenamente identificada pelas tuas palavras... Parece que descreveste a minha situação já de anos...

Afixado por: Gilly em maio 7, 2004 06:25 PM