março 20, 2004

Momentos II

Dentro de momentos existirão, cada vez mais, momentos. Pedaços de instantes que, dentro de um instante maior, guardamos como tesouros. A nossa riqueza, momentos, passa por nós como gotas de um oceano infinito. Receamos o seu fundo e, no entanto, amamos a sua superfície povoada por mais instantes. Eu, tal como como tantos outros humanos, guardo dentro de mim tesouros, instantes, momentos. Ainda à escassos minutos tive um momento; um instante de reflexão profundo. Deixei-me vagear em mim mesmo na presença do meu Anjo. O meu Anjo não é um momento, não é um instante. É, apesar, um tesouro. Mais do que um instante, mais que um momento. É o conjunto de momentos e instantes. Partilho com ele, o meu Anjo, a dor e tristezas que nunca poderão ser comparadas. A dor e tristeza que, para sempre, serão dor e tristeza. As suas lágrimas, gotas no oceano infinito, de momento. Choram sobre mim. E vagueei, voei por mim mesmo, fui ao cerne da minha dor. E aí, na presença do meu Anjo, na presença da minha dor, compreendi; percebi a minha essência, a dor do mundo. O meu Anjo, entre gotas do oceano, disse tenho medo. O eterno medo que, como os momentos, acompanham a nossa raça até ao fim dos dias. É o medo do fim, do encerrar. Do terminus de uma vida. A Morte. O medo. A morte e o medo, juntos, entre gotas de um oceano. Eu não sabia falar. Perdi a noção das palavras. Dei-lhe, ao meu Anjo, a toalha para limpar as gotas. A toalha. Disse desculpa. Dizer desculpa é admitir, sem gotas de um oceano, o egoísmo; ele disse todos nós temos direito ao nosso egoísmo. Eu aí chorei, lágrimas, gotas. Dentro de mim. E senti uma força tremenda. Senti gratidão. Pela compreensão da dor, pelos esforços, pelo medo. Dor, esforço, medo. São, quando juntos, Amor. E ao Amor devemos sempre retribuir com, eterna, gratidão. E foi mais um momento. Que estava dentro de um momento, ainda maior, que era maior que todos os momentos. O Momento. O instante, que não é instante, eterno. Esse momento é o mais dilacerante de todos. É o nosso, eterno, momento. E volto a estar perdido na gota de uma lágrima que chorou a minha alma. Sem nada, e com tudo. Com tudo, a dor, o Amor, a tristeza; sem nada, o vazio.

"Ai! o que se aproxima, é a época do homem mais desprezivel, do que nem se poderá desprezar a si mesmo." Frederich Nietzsche in Assim Falava Zaratustra

E jazem as palavras sábias. A premonição de um pensador, de um doente do mundo, que é, nos nossos dias, mais que comprovada. E eu, como Cristo, pergunto, em tons de desespero: "Porque é que me abandonaste?" Súplica de uma resposta de quem não acredita no inquirido...

Publicado por Downthesun em março 20, 2004 03:58 AM
Comentários

Ele (Nietzsche) sabia do que falava!!!Chegámos a esse tempo dos homens desprezíveis, que se desprezam...

Afixado por: melancia em março 23, 2004 11:52 AM

Pois é... Esse tempo já chegou... Mto infelizmente :(

Afixado por: downthesun em março 23, 2004 09:05 PM