março 16, 2004

Maldições, Amor e Medo

O correr efémero dos dias sob a minha pele, a minha escultura corporal, é a causa da minha erosão mental, o explodir da minha mente. Existir é não dar vida ao corpo e ter a alma a chorar. Chora, sempre, lágrimas que não são ouvidas; Chora, sempre, gritos de angústia que, com o correr efémero dos dias sob a minha pele, mostram-me. A exaustão. Temo, a cada dia que passa, o cair da noite. Agora, de tarde, estou no meu estado de dormência, de nulidade. Mas a noite, as trevas que, em tempos, foram-me tão queridas tornam-se lacinantes. Ouiço o ganir da minha alma quando, de noite, fecho os olhos. De tarde não. A noite e a tarde são as minhas vidas. A dormência e a agonia. E vivo momentos. O Livro é um dos momentos: embebedo a minha mente em palavras, pensamentos, frases e personalidades que não são as minhas. E, nesse momento, passeio-me em mim, no meu sangue, na minha alma, no meu passado. Cada palavra caí-me como uma maldição que invoquei. E, como os imaginários feiticeiros, imploro mais palavras, mais sangue, mais alma, mais passado. Maldições...

O dia onde a luz brilha, amado por tantos mortais por ser antónimo de trevas, é a minha inexistência. Sorrio, converso. Cada vez menos. Começo, na rua, nas viagens, no meu Lar, a destruir-me nos meus pensamentos, na minha nulidade. Minto. Abstraio-me novamente em divagações da minha mente que, com satisfação, vagueiam a minha alma. E, de dia, quando fecho os olhos vejo-A. Ela, o meu anjo. A Sua dor, a Sua alma, a imensidão dos seus olhos. Perco-me horas na escultural presença dos Seus lábios. Navego em nós. De dia, vejo-o como se me segurasse do desespero total. Ele, o meu Anjo, é o meu sorriso da alma. Dentro das lágrimas da minha alma, ela sorri. E eu sorrio com ela. Sorriso, lágrimas, lábios,olhos. Amor...

E, com o pôr-do-sol, as trevas começam a sair do seu covil iluminado pelo Sol. Tal como no Livro, nas palavras e personalidades que não são minhas a Música nasce uma vez mais. Penso que a Música, que tanto Amo, é a filha das trevas. A noite. De entre a escuridão, das trevas, da noite, a minha dormência cessa. Os pensamentos, palavras e personalidades que, desta feita, são minhas, atormentam a minha existência. Uma vez mais. A agonia, a Exaustão. O Livro já não me satisfaz; só atormenta mais. A dor, o passado surgem como companhia para as horas das trevas. E o início das trevas acaba com o meu deitar. Mais que a noite, temo a minha cama. Com sono, fatiga e exaustão a dor aumenta. E, por mais sono que tenha, os olhos teimam em voltar a abrir-se. Não porque queira, mas porque não consigo ver-me. Fecho os olhos, uma vez mais, e a Dor, o Passado, o Presente, o Futuro. O tormento é maior. E abro os olhos, quentes e húmidos de lágrimas, assustado. Temo, por mais sono que tenha, fechá-los novamente. Medo...

E é assim que a cíclica rotina dos meus dias decorre: Maldições, Amor e Medo.

Publicado por Downthesun em março 16, 2004 04:50 PM
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