dezembro 07, 2003

Hill Billy

Li, em tempos, uma coisa que me fez pensar na minha vida... Acho que foi a minha primeira "crise existencial". Não me recordo do livro em que li isto embora já tenha procurado vezes sem conta.

"Aquilo que tu fazes, regressa a ti a triplicar..."

A minha vida então era pacata. Não tinha, digamos, preocupações demais. Tinha 13 anos, ninguém da minha escola se dava comigo temendo sofrer o mesmo tratamento dos abruptos, vulgo imbecis que implicam com putos de 13 anos. Não tinha assim grande presença, andava maioritariamente mal-vestido, não por ser uma moda da típica adolescência, mas sim porque corria sempre graves riscos de me roubarem as coisas mais valiosas. Refugiava-me nas melodias dos Metallica e, ocasionalmente, na voz rouca do Kurt Cobain. Nunca questionei a minha vida até esse dia, em que li essa frase.

Eu era maltratado e ignorado naquela altura em que mais nos damos com as pessoas. Muito bem, tinha os meus amigos, mas eram fora do círculo escolar. E comecei a pensar no porque de me tratarem assim. Devo ter feito alguma coisa de mal na minha vida... Nunca encontrei a resposta para esta questão. Com o tempo a minha adolescência e todos os seus problemas bateram-me à porta,mas desta feita com um punhado de pessoas que realmente gostavam de mim. Descobri o que era estar perdidamente apaixonado, o que era ser rejeitado(no sentido amoroso), o que era chorar de solidão mesmo sabendo que tinha amigos ao "virar da esquina". Aconteceram-me milhentas peripécias, umas piores que outras, e foi numa altura, no final dos meus 15 anos que me lembrei da tal frase. Que mal havia eu feito? Nunca consegui descobrir.

Foi nesta altura, no auge da adolescência, que eu fiz asneiras valentes. Desde trair amigos, namorada, família e afins. Enterrava-me numa máscara muito cómoda que eram os efeitos de haxixe. Apenas duas pessoas me perguntaram se eu estava bem. Armei valentes broncas em minha casa, na minha escola, nas aulas, com os meus colegas e isso foi-me deixando num poço cada vez mais fundo. Nesta altura, voltei-me a lembrar da frase. Mas num sentido totalmente diferente. Queria ver como é que me ia doer desta vez que SIM , fiz porcaria.

A dor acabou por ser agoniante. O que me sucedeu, em tão curto espaço de tempo, foi simplesmente péssimo. Senti na minha pele, na minha alma o verdadeiro significado dessa frase que em tempos, tanto me marcou e fez pensar. Julgo que seja por isso que, actualmente, tento ser o mais correcto possível com as pessoas. As lições aprendem-se com os erros... E que erro foi não ter percebido a veracidade da frase.

Publicado por Downthesun em dezembro 7, 2003 09:52 PM
Comentários

Porque é que quando nos acontecem coisas boas nunca pensamos que devemos aplicar essa regra também?! Porque é que nunca pensamos que aquilo nos está a acontecer porque fomos boas pessoas?

Afixado por: Lady Sianna em dezembro 7, 2003 10:14 PM

Talvez porque essas coisas boas são tão raras, como quebras numa rotina, que as saboreamos tanto que nos esquecemos desses promenores...

Afixado por: downthesun em dezembro 7, 2003 10:35 PM

Toda a gente passa por aí, de uma ou de outra forma, mas apanhaste o sentido geral. O facto de ser filho único motiva um super-proteccionismo por parte dos meus pais, ainda com a idade que tenho, pq há uma incompreensão que, às vezes, é preciso bater com a cabeça para se aprender.

Se disseres a uma criança de 3 anos que o fogo queima, não interessa.. Ela tem de pôr a mão.

E Lady Siana: no outro dia, a falar sobre religião com uma amiga minha, ela perguntou-me exactamente a mesma coisa (tendo em conta as diferenças evidentes): pq é que só qd se tá mal se pede ajuda a Deus? pq é que qd corre tudo bem é fruto do nosso trabalho e tudo mal perguntamos "Que mal é que Lhe fiz?".. Não lhe consegui responder. Enquanto seres humanos, somos muito egoístas e egocêntricos no pior sentido da palavra...

Afixado por: MrQuentin em dezembro 8, 2003 02:33 AM

Engraçado...Os meus tempos de Liceu também não foram fáceis. Só na Faculdade é que fui feliz, por momentos. Você escutava Kurt Cobain,e eu Amália Rodrigues. Que diferença, para sentimentos tão idênticos. A vida tem cá cada coisa...Se puder leia um pouco das minhas crónicas,principalmente as primeiras.Encontrará uma pessoa que talvez tenha tido uma adolescência muito pior que a sua.Talvez isso lhe sirva de consolação.Sempre há gente que sofre mais...Um abraço.

Afixado por: Valeria Mendez em dezembro 9, 2003 03:24 AM

Valeria Mendez, obrigado pelos comentários. Infelizmente nunca encontrei consolo na desgraça/sofrimento dos outros... Mas o consolo encontro-o nos pequenos gestos que os que me são mais chegados me proporcionam.

Afixado por: downthesun em dezembro 9, 2003 04:35 PM