Pois é... Já não seria a primeira vez que me diriam que a vida é bela. Claro que alguns pseudo-maniaco-depressivos acrescentariam "nós é que damos cabo dela". Bem, permitam-me discordar. Numa conversa com a Lady, a minha companheira deste blog, falámos sobre a vida e seus objectivos. Lembro de nos termos focado mais concretamente na felicidade. Por mais limitativo que possa parecer continuo com uma ideia pré-formada sobre este assunto: A felicidade não pode existir.
Vamos então cingir-nos aos factos e analisar de forma objectiva esta minha ideia. Se pegarmos no conceito de felicidade como algo de platónico, conjunto de alegrias imensas e perfeição sentimental para com a vida, e não, como uma forma de dizer que estamos, citando agora Lady Sianna, "num auge de alegria", pode este sentimento existir? Se nós, humanos, somos uns inconformistas de primeira... Falta-nos sempre algo... por mais simples que seja aos olhos de outros, para nós pode significar o mundo. Eu próprio já elaborei uma lista,não muito grande, do que precisaria para ser feliz... São coisas que não dependem inteiramente de mim. Coisas pequenas e diferentes umas das outras. Podem parecer insignificantes. Mas para mim não o são. Falta-nos sempre algo... Logo, num silogismo lógico, a felicidade não existe.
Agora pego num excerto de uma das frases com que iniciei esta entrada:que a vida é bela. O que é conceito de beleza? Aquilo que nos é bonito, agradável de olhar? Não será isto um juízo tão subjectivo?
A beleza é um assunto que não merece ser discutido, a não ser por apreciadores com gosto em comum, porque eu posso achar bela uma pintura de Picasso e outra pessoa não. Não se trata de apreciar arte. Trata-se de gosto. Daí a subjectividade do sentimento. Discutam arte, se é bela ou não, apenas com pessoas com gostos semelhantes. Discutir com pessoas que nada têm haver connosco é desperdício de latim( sim, nós ao contrário dos ingleses podemos utilizar esta expressão correctamente).
Ontem antes de adormecer fui ler alguns sonetos da (grande) poetisa Florbela Espanca. Fiquei particularmente interessado num... aqui vos deixo para vocês o lerem, principalmente porque me fez lembrar um "piolhinho" que eu conheço.
Ódio?
"Ódio por ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto...
Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!
Ah! Nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!
Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena"
Florbela Espanca in "O Livro de Soror Saudade"
Publicado por Downthesun em setembro 19, 2003 11:47 AM....incrivel....é um dos meus poemas preferidos de Florbela Espanca....
Disseram-me que eu escrevia duma maneira semelhante á tua.....se quiseres aparece um dia destes lá no blog.....